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Animal Crossing, a vila que nasceu da solidão em Kyoto

Katsuya Eguchi trocou a família por Kyoto e pôs no cartucho uma vila de vizinhos que vive no tempo real.

Vila de casinhas entre árvores ao entardecer, com lanternas acesas

Animal Crossing, a vila no Nintendo 64, 2001

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14 de abril de 2001. Foi o dia em que a Nintendo pôs à venda no Japão, para o Nintendo 64, um cartucho chamado Dōbutsu no Mori, que quer dizer “floresta dos animais”.

O jogo chegou sem chefe, sem fase e sem final. O jogador se mudava para uma vila pequena, habitada por bichos que falam, e recebia uma casa minúscula e uma dívida com o dono da loja.

Dentro do cartucho havia uma peça rara para a época: um relógio de verdade, com bateria própria. O jogo lia a hora e a data do mundo real e ajustava a vila a elas.

Se fossem 22h, a vila estava escura e as lojas fechadas. Se fosse dezembro, caía neve. Se o jogador sumisse por duas semanas, voltava a uma casa cheia de baratas, ao mato alto e a vizinhos que perguntavam por onde ele tinha andado.

O tempo andava com o console desligado. A vila não esperava ninguém.

A ideia veio de Katsuya Eguchi, designer da Nintendo que tinha trocado a cidade de Chiba, perto de Tóquio, por Kyoto, sede da empresa, para trabalhar. Chegou sozinho, sem família e sem amigos por perto, numa cidade onde não conhecia ninguém.

O jogo que ele imaginou a partir dessa mudança tinha um propósito simples: dar a quem joga a sensação de ter vizinhos, gente que nota quando você chega e quando você some.

Naquele mesmo ano, a Nintendo levou o jogo ao GameCube, com o nome Dōbutsu no Mori+. Em 2002, a versão ocidental saiu nos Estados Unidos com o título Animal Crossing, que a casa conhece hoje.

O cartucho japonês nunca saiu do Japão. Quem quisesse a vila precisava ler japonês ou esperar a viagem para o Ocidente, que levou mais de um ano.

O que o jogador fazia nessa vila, dia após dia, começa numa casa de um cômodo e numa conta a pagar ao guaxinim da loja.

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I  O Jogo de Hoje

Uma casa de um cômodo e uma dívida

Animal Crossing, da Nintendo, abre num trem. O jogador conversa com um gato chamado Rover, escolhe nome e desce numa vila de poucos moradores, todos animais com casa, gosto e humor próprios.

Na estação espera Tom Nook, um tanuki (cão-guaxinim japonês, bicho do folclore). Dono da única loja da vila, ele oferece a primeira casa e cobra por ela em sinos, a moeda do jogo.

Para começar a pagar, o jogador trabalha na loja de Nook: planta flores, entrega cartas, leva recados de vizinho a vizinho. Terminado o serviço, a vila inteira fica livre.

O dia se enche de tarefas pequenas. Sacudir árvore, pescar no rio, caçar inseto com rede, cavar fóssil com a pá, mandar carta pelo correio e decorar a casa com móvel comprado ou ganhado.

A vila no relógio

O relógio interno manda em quase tudo. Cada peixe e cada inseto tem mês e horário: há besouro que só aparece de madrugada no verão e peixe que só sobe o rio à noite.

• Manhã: a loja de Nook abre e os vizinhos saem para passear.

• Sábado à noite: K.K. Slider, um cachorro violonista, toca na estação e dá a música ao jogador.

• Feriados: a vila faz festa de Ano-Novo, fogos no verão e colheita no outono.

• Ausência longa: mato cresce, baratas aparecem e algum vizinho pode se mudar.

Em Animal Crossing, a vila continua viva mesmo quando o console está desligado.

Os vizinhos

Os moradores têm personalidade: há o atlético, o resmungão, o preguiçoso, a esnobe. Eles pedem favores, mandam presente, reclamam do vizinho de porta e lembram quando o jogador sumiu.

Quem desliga o console sem salvar ganha visita de Mr. Resetti, uma toupeira de capacete que sai do chão para dar bronca. A cena virou um dos personagens mais lembrados da série.

Na versão de GameCube, o jogador também podia achar consoles NES (o Nintendo de 8 bits) dentro da vila. Cada um rodava um jogo antigo de verdade, como Donkey Kong e Balloon Fight, direto na sala da casinha.

A vila guardava ainda um museu. A coruja Blathers recebe peixes, insetos, fósseis e quadros, e cada doação enche uma sala vazia.

Perto da entrada da vila fica o posto policial, onde dois cachorros, Copper e Booker, guardam o achados e perdidos. Cada canto da vila tem alguém de plantão.

No fim do dia, o jogador volta para casa, salva o jogo e encontra na caixa de correio as cartas dos vizinhos, com erros de ortografia e presentes embrulhados.

 
 

II  Onde Jogar

Onde a vila abre hoje

A forma mais fácil de visitar a série é Animal Crossing: New Horizons, lançado em 20 de março de 2020 para o Nintendo Switch. Desta vez, o jogador desembarca numa ilha deserta para povoar.

A Nintendo lançou uma edição para o Switch 2 em janeiro de 2026, com resolução maior e recursos do console novo. Quem já tem o jogo do Switch pode atualizar.

New Horizons custa por volta de R$ 300 na loja digital da Nintendo. Como não tem final, a duração depende de quem joga: muita gente visita a ilha alguns minutos por dia, por anos.

A ilha mantém a ideia do original. O relógio do console continua mandando nas estações, nas espécies de peixe e inseto e nos feriados, e o jogador pode visitar a ilha de amigos pela internet.

A família da vila

1. Dōbutsu no Mori, de 2001, para Nintendo 64.

2. Animal Crossing, de 2002, para GameCube.

3. Wild World, de 2005, para Nintendo DS.

4. City Folk, de 2008, para Wii.

5. New Leaf, de 2012, para Nintendo 3DS.

6. New Horizons, de 2020, para Switch.

Wild World levou a vila para o bolso e abriu visitas pela internet. City Folk acrescentou uma cidade grande, com ônibus. Em New Leaf, o jogador vira prefeito e decide obras públicas.

New Horizons é a porta de entrada da série e roda em qualquer Switch.

O original hoje

O cartucho de Nintendo 64 é peça de colecionador e só roda em console japonês. A versão de GameCube aparece em lojas de usados e funciona também no Wii, que lê disco de GameCube.

Como começar a ilha

1. Jogue um pouco todo dia: o jogo foi feito para visitas curtas.

2. Converse com cada vizinho ao menos uma vez por dia.

3. Doe ao museu todo peixe e inseto novo.

4. Olhe o calendário: cada mês traz espécies diferentes.

No hemisfério sul, o jogo pergunta onde fica a ilha logo no início. Quem escolhe o sul recebe as estações invertidas, com neve em julho e verão em dezembro, como no Brasil.

 

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III  Bastidores

Um designer longe de casa

Katsuya Eguchi nasceu em 1965, em Chiba, e entrou na Nintendo em 1986. Ainda novo, ajudou a desenhar fases de Super Mario Bros. 3 e dirigiu Star Fox, de 1993.

Para ficar na empresa, ele se mudou para Kyoto aos 21 anos. Contou em entrevistas, a partir de 2008, que a mudança o deixou longe da família e dos amigos de infância, sem a rotina de ver as mesmas pessoas todos os dias.

Ele lembrou o que mais faltava: a convivência à toa, o vizinho que cumprimenta, o amigo que aparece sem avisar. Animal Crossing nasceu como tentativa de pôr essa convivência num jogo.

Do disco ao cartucho

O projeto começou pensado para o 64DD, um acessório de disco magnético do Nintendo 64 que vendeu pouco e saiu só no Japão. Com o fracasso do aparelho, a equipe passou o jogo para cartucho comum.

O relógio veio junto. O cartucho recebeu um chip de tempo real com bateria, o que deixava a vila andar mesmo com o console fora da tomada.

Eguchi dividiu a direção com Hisashi Nogami, que anos depois produziria Splatoon. A equipe escreveu cada vizinho como gente da vila, com rotina e manias, para o jogador sentir falta deles.

A comunicação em família

Eguchi queria também que a família jogasse junta. No original, até quatro pessoas moravam na mesma vila, cada uma na sua casa, e deixavam bilhete e presente umas para as outras.

Quem jogava de manhã encontrava, à noite, o que o irmão ou a mãe tinham mudado. A vila virava um quadro de recados da casa real, onde cada um cuidava de uma parte.

A equipe também traduziu a vila com cuidado na viagem ao Ocidente. Os feriados japoneses foram trocados por datas americanas, como o Dia de Ação de Graças, e os textos dos vizinhos foram reescritos para soar natural em inglês. O trabalho levou meses e fez a versão ocidental parecer um jogo novo.

Depois da vila

Eguchi produziu depois Wii Sports, Wii Fit e a série Splatoon. Animal Crossing seguiu sob o olhar dele e de Nogami a cada geração de console.

New Horizons saiu nas primeiras semanas da pandemia, quando boa parte do mundo estava em casa. O jogo passou de 45 milhões de cópias, segundo o balanço da Nintendo de março de 2024, e virou ponto de encontro de quem não podia se ver.

A vila pensada por um homem sozinho em Kyoto acabou servindo de vizinhança para milhões de pessoas trancadas em casa.

“Que vizinho você visitaria primeiro na sua vila?”

 
 
Quiz da edição

Em Animal Crossing, quem aparece para dar bronca no jogador que desliga o console sem salvar?

ATom Nook, o tanuki dono da loja
BK.K. Slider, o cachorro violonista
CMr. Resetti, a toupeira de capacete
DBlathers, a coruja do museu

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