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Dandara, a heroína mineira feita só de saltos

A Long Hat House, de Belo Horizonte, homenageou Dandara dos Palmares em 2018 com uma guerreira que nunca anda, só pula entre faixas de sal.

Guerreira de lenço amarelo saltando entre paredes brancas de sal

Dandara, o salto feito em Belo Horizonte

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6 de fevereiro de 2018. Nesse dia, um jogo feito por dois mineiros em Belo Horizonte apareceu ao mesmo tempo no computador, no Nintendo Switch e na loja de aplicativos do celular.

O jogo se chamava Dandara, e a heroína tinha um defeito de fábrica escolhido de propósito: ela não anda. Não corre, não agacha, não dá um passo para o lado. Toda a viagem acontece em saltos retos, de uma superfície branca a outra.

Essas superfícies são de sal. Ele forra pedaços do chão, das paredes e do teto, e a heroína gruda em qualquer um deles, de cabeça para baixo se precisar. A tela gira junto, e o jogador perde a noção de onde fica o céu nos primeiros minutos.

Quem jogou Metroid, de 1986, ou Castlevania: Symphony of the Night, de 1997, reconhece a família. Dandara é um metroidvania (o gênero de mapa grande e interligado, onde cada poder novo abre uma porta antes fechada), com salas que se repetem até o jogador achar o caminho.

O estranhamento passa rápido. Depois de meia hora, o salto vira instinto: o polegar aponta, a guerreira voa em linha reta, pousa, e a mira já procura o próximo pedaço branco. A sensação lembra mais um jogo de bilhar do que um jogo de plataforma.

A escolha da protagonista também tinha endereço. Dandara dos Palmares foi uma guerreira do Quilombo dos Palmares, a comunidade de pessoas escravizadas fugidas que resistiu por quase um século na Serra da Barriga, em Alagoas, no século 17.

O estúdio mineiro Long Hat House pôs essa memória num mundo de fantasia, cheio de cidades tomadas por soldados, artistas presos e um povo sem permissão para criar. A homenagem aparece no traço, nas personagens e na música, sem aula de história no meio da partida.

A seção O Jogo de Hoje abre no mapa do mundo de Sal, onde a heroína acorda e começa a saltar.

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I  O Jogo de Hoje

Um mundo de cabeça para baixo

A resposta de ontem

Qual piloto brasileiro ganhou expansão própria em 2019?

Ayrton Senna. A expansão Senna Sempre, lançada pela Aquiris em 2019 com o Instituto Ayrton Senna, leva o jogador pelas fases da carreira do tricampeão de Fórmula 1 (1988, 1990 e 1991), do kart às temporadas na McLaren, com carros e pistas inspirados nas corridas dele.

Dandara se passa em Sal, um mundo onde a criatividade virou crime. Um exército de soldados de capacete ocupa as cidades, cala os artistas e mantém o povo em silêncio, e a heroína desperta para devolver a voz a quem perdeu.

O jogador controla Dandara com dois gestos. Um aponta a direção do salto; o outro dispara. No controle, o direcional mira e um botão manda a guerreira; no celular, o dedo arrasta uma seta na tela, e a heroína vai exatamente aonde a seta indica.

Não existe pulo pela metade. Se não houver sal na direção escolhida, a seta não acende e o salto não sai, e o jogador aprende a ler a sala como um mapa de pontos de apoio.

O sal como moeda

O sal também paga a evolução. Inimigos derrotados soltam cristais, e a heroína gasta esses cristais nos acampamentos, as fogueiras onde o progresso fica salvo, para ganhar mais vida, mais energia ou mais itens de cura.

Quem cai em combate perde o sal carregado e volta ao último acampamento. Para recuperar, precisa voltar ao ponto da queda, como nos jogos da série Dark Souls, e o trajeto de volta costuma ser o trecho mais tenso da noite.

O ataque básico é um disparo curto, que fica mais forte quando o jogador segura o botão. Com o avanço, Dandara ganha poderes novos, como mísseis que perseguem o alvo e um escudo, e cada um abre áreas antes inacessíveis do mapa.

O salto entre superfícies de sal é o jogo inteiro: andar, lutar e explorar passam pela mesma mira.

As cidades de sal

O mapa se divide em regiões com identidade própria. Há a aldeia dos artistas, uma fortaleza militar fria e cinzenta, florestas de cristal e um reino de sonhos onde as paredes mudam de lugar.

Em cada uma vivem personagens que pedem ajuda. Uma delas, a pintora Tarsila, carrega a referência mais direta à cultura brasileira do jogo: o traço lembra a modernista Tarsila do Amaral, autora do quadro Abaporu, de 1928.

Os chefes, os inimigos grandes no encerramento de cada região, exigem saltos rápidos e leitura de padrão. O general Eldar, o vilão principal, comanda o exército e encarna a censura que sufoca o mundo de Sal.

A arte em pixel art (o desenho feito ponto a ponto, como nos jogos dos anos 1990) usa roxo, azul e vermelho fortes, e o lenço amarelo da heroína corta a tela como um sinal. Mesmo de cabeça para baixo, o olho encontra Dandara em meio segundo.

 
 

II  Onde Jogar

Do celular ao Switch, no mesmo dia

Dandara saiu em fevereiro de 2018 em quatro frentes de uma vez: Windows e Mac pela Steam, Nintendo Switch, iPhone e Android. Meses depois, ganhou versões para PlayStation 4 e Xbox One.

A estreia simultânea no celular era rara para um metroidvania. O gênero costuma depender de controle com muitos botões, e a mira de um gesto só tornou o jogo confortável na tela de toque.

No Switch, as duas formas convivem. No modo portátil, dá para jogar com os botões ou tocando direto na tela, e muita gente alterna as duas conforme a sala.

No computador, o jogo aceita controle e também teclado com mouse. O mouse vira a mira, e o clique solta o salto, um esquema que agrada a quem joga de tiro e estranha direcional.

A campanha principal ocupa algumas tardes para quem joga com calma, e o mapa completo, com todos os segredos e itens escondidos, pede bem mais. Hoje Dandara está nas lojas digitais da Steam, da Nintendo, da PlayStation, do Xbox, da Apple e do Google, com preço de jogo independente.

A edição do medo

No ano seguinte ao lançamento, a Long Hat House soltou uma atualização gratuita chamada Trials of Fear Edition (Edição das Provações do Medo). Ela acrescentou uma região nova, chefes inéditos, um final novo e uma cidade inteira para explorar.

A atualização também mexeu na dificuldade. O começo ficou mais acolhedor para quem estranhava o salto, e os trechos finais ganharam mais desafio para quem já dominava a mira.

Quem comprou a versão original recebeu tudo sem pagar a mais, e quem compra hoje leva o pacote completo direto.

Em qualquer aparelho, a regra de Dandara segue igual: mirar, saltar e pousar no sal.

Para os primeiros saltos

1. Gire o olhar junto com a tela: a heroína está sempre de pé em relação ao sal onde pousou.

2. Gaste o sal nos acampamentos assim que puder: carregar muito sal arrisca perder tudo numa queda.

3. Volte às salas antigas com cada poder novo: o mapa guarda portas fechadas desde o começo.

4. No celular, use o dedo inteiro, sem pressa: a seta mostra o destino antes do salto.

5. Nos chefes, salte mais do que atire: ficar parado é o erro mais comum.

 

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III  Bastidores

Dois mineiros e uma guerreira de Palmares

A Long Hat House nasceu em Belo Horizonte, fundada por João Brant e Lucas Mattos, dois desenvolvedores mineiros que queriam fazer um jogo com cara de Brasil e alcance de mercado internacional.

A ideia do salto veio antes da heroína. A dupla buscava um controle que funcionasse igual no celular e no console, e chegou à mira de um gesto só: o jogador escolhe o destino, e o corpo da personagem cuida do resto.

Com o movimento pronto, faltava quem saltasse. A escolha recaiu sobre Dandara dos Palmares, figura que a escola brasileira quase sempre deixou na sombra de Zumbi dos Palmares, o líder do quilombo e companheiro dela.

A personagem real

Sobre a Dandara histórica restam poucos documentos. Os registros escritos da época foram produzidos pelos colonizadores, que pouco anotaram sobre as mulheres de Palmares, e boa parte da biografia dela chegou pela tradição oral e pela pesquisa do movimento negro no século 20.

O que se conta é que ela lutou nas defesas do quilombo, plantava, caçava e se opunha a acordos com a Coroa portuguesa. A data exata do nascimento e a origem dela seguem desconhecidas, porque nenhum documento da época as registra.

Em 2019, uma lei federal inscreveu Dandara no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, guardado no Panteão da Pátria, em Brasília. O jogo mineiro tinha chegado às lojas um ano antes.

A Long Hat House juntou duas heranças: o salto pensado para a tela de toque e uma guerreira apagada dos livros escolares.

A música e o mundo

A trilha sonora ficou com o compositor Thommaz Kauffmann, que misturou sintetizador, percussão e melodias de tom melancólico, uma faixa por região. A música acompanha a troca de cidades e cresce nas lutas contra os chefes.

A equipe era pequena, e cada sala do mapa passou por testes com jogadores em eventos de jogos independentes no Brasil. O retorno do público ajudou a calibrar a velocidade do salto e o tamanho das faixas de sal.

O jogo também precisava de uma editora com braço lá fora, alguém para negociar com Nintendo, Apple e Google e colocar o jogo de Belo Horizonte em vitrines de vários países no mesmo dia.

A parceria funcionou. Dandara ganhou espaço na imprensa internacional e virou um dos jogos brasileiros mais lembrados da década.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual editora sueca levou Dandara às lojas do mundo inteiro em 2018?

 
 
Quiz da edição

Quando Dandara cai em combate, o que o texto diz que acontece com o sal que ela carregava?

AEla mantém todo o sal e só perde um pouco de vida
BEla perde o sal carregado e volta ao último acampamento
CO sal se transforma automaticamente em vida extra
DO sal fica marcado no mapa pra sempre, sem prazo

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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