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Dwarf Fortress passou 16 anos de graça na internet

Os irmãos Tarn e Zach Adams viveram de doação até a saúde de Zach levar o jogo, com gráfico novo, à loja da Valve.

Salão de pedra escavado na montanha, com anões trabalhando à luz de tochas

Uma fortaleza de anões dentro da montanha

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16 anos. Foi o tempo em que Dwarf Fortress, o jogo dos irmãos americanos Tarn e Zach Adams, ficou disponível de graça no site da Bay 12 Games, de agosto de 2006 a dezembro de 2022.

Durante esse período, quem baixava o arquivo recebia uma tela preta cheia de letras, números e símbolos coloridos. Um ponto marrom podia ser lama. Um sinal de igual amarelo podia ser uma cama. A letra g verde quase sempre era um goblin chegando para atacar.

A tela crua não afastou os jogadores. Uma comunidade fiel se formou em fóruns, aprendeu a ler o mapa de símbolos e passou a mandar dinheiro aos dois irmãos pelo PayPal, sem receber nada em troca além da próxima atualização.

Os Adams levavam o compromisso a sério. Todo mês, Tarn publicava no site um relatório com o valor das doações recebidas e uma lista do que tinha programado nas semanas anteriores. Era a única fonte de renda da dupla, e os dois viviam de forma simples para o dinheiro durar.

Os fãs também mandavam desenhos, contos e relatos de fortalezas perdidas. Em troca de doações maiores, Zach escrevia pequenas histórias personalizadas e Tarn fazia desenhos a giz de cera, enviados pelo correio.

Em 2019, a rotina mudou. Os irmãos anunciaram uma versão paga, com desenhos no lugar dos símbolos, feita em parceria com a editora canadense Kitfox Games. O motivo apareceu no próprio anúncio: os custos de saúde de Zach, que tratava um câncer, tinham ficado altos demais para depender de doação.

A versão chegou à Steam em 6 de dezembro de 2022 e virou um dos lançamentos mais comentados daquele ano entre os jogadores de PC.

Para entender por que tanta gente aceitou jogar letras numa tela preta por 16 anos, vale começar pelo mundo que o jogo inventa antes da primeira partida.

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I  O Jogo de Hoje

O mundo que nasce antes da partida

Dwarf Fortress, lançado pela Bay 12 Games em 2006, coloca o jogador no comando de sete anões que chegam a um terreno virgem com uma carroça, algumas ferramentas e a missão de cavar uma fortaleza na montanha. Antes da chegada, porém, o jogo cria um mundo inteiro do zero.

A geração de mundo dura de alguns segundos a vários minutos. Nesse tempo, o programa ergue montanhas, abre rios pela erosão, define o clima de cada região e espalha civilizações de anões, elfos, humanos e goblins. Depois, simula séculos de história: guerras, casamentos, heróis, deuses inventados e bibliotecas inteiras de livros fictícios.

Cada anão com uma biografia

Cada anão nasce com nome, família, gostos e memórias. Um pode adorar queijo de cabra e odiar aranhas; outro pode guardar luto por um irmão perdido numa invasão anterior. As emoções se acumulam ao longo dos meses e mudam o comportamento de cada morador.

Quando o humor despenca, o anão pode entrar em fúria, quebrar móveis, brigar com vizinhos ou afundar na tristeza. Um anão triste contagia os outros, e um funeral mal feito pode puxar a fortaleza inteira para baixo, num efeito em cascata apelidado pelos fãs de espiral da birra (tantrum spiral, no original em inglês).

Em Dwarf Fortress, o fracasso também conta história.

Perder é divertido

O lema não oficial da comunidade é Losing is Fun (perder é divertido). Nenhuma fortaleza dura para sempre: ela cai por fome, por enchente, por uma criatura saída das profundezas ou por um erro de engenharia do próprio jogador. O fim faz parte do plano, e cada queda vira uma crônica.

O exemplo mais famoso é Boatmurdered, partida coletiva jogada em 2007 por usuários do fórum Something Awful. Cada participante comandava a fortaleza por um ano do jogo e passava o arquivo adiante, contando o que acontecia. A colônia acabou cercada por elefantes, incendiada e afogada em lava, e o relato correu a internet.

Três jeitos de jogar

Além do modo Fortaleza, o jogo tem o modo Aventura, em que o jogador controla um único herói andando pelo mesmo mundo gerado, e o modo Lendas, uma enciclopédia navegável com toda a história simulada: quem venceu cada guerra, quais cidades caíram, quais artefatos se perderam.

Um herói do modo Aventura pode visitar as ruínas de uma fortaleza abandonada no modo Fortaleza e encontrar ali os objetos e os túmulos deixados pela colônia anterior. O mundo guarda a memória das partidas.

Em 2012, o Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, incluiu Dwarf Fortress entre os primeiros 14 jogos da sua coleção permanente, ao lado de Pac-Man, Tetris e The Sims.

A escolha do museu destacou a geração de mundo: cada partida começa num planeta único, com nomes, mapas e histórias inéditas, e nenhum jogador vê o mesmo continente duas vezes.

 
 

II  Onde Jogar

Duas versões do mesmo mundo

Dwarf Fortress existe hoje em duas versões. A clássica, com os símbolos de texto, continua de graça no site da Bay 12 Games, como sempre esteve. A premium, com gráficos desenhados, trilha sonora e interface com mouse, é vendida na Steam e na itch.io.

Onde jogar: PC (Windows e Linux), na Steam e na itch.io. Duração: sem fim, cada partida vai até a fortaleza cair. Preço: US$ 29,99 na premium; a clássica segue gratuita.

A versão paga trouxe a mudança mais pedida pelos novatos: ícones no lugar das letras. Os desenhos vieram dos artistas Michael Madden e Mike Mayday, conhecidos na comunidade pelos apelidos Meph e Mayday, que por anos fizeram pacotes de gráficos gratuitos para o jogo clássico.

Quem prefere o visual antigo pode ativar os símbolos clássicos também na versão da Steam, nas opções de gráficos.

O manual dos fãs

Por 16 anos, aprender Dwarf Fortress exigia a wiki dos fãs aberta numa segunda janela. A edição premium ganhou tutoriais dentro do jogo e menus redesenhados pela equipe da Kitfox Games, para um novato montar a primeira fortaleza sem ajuda de fora.

O modo Aventura chegou mais tarde à versão da Steam, numa atualização separada, com o mesmo cuidado gráfico. Os dois irmãos seguem lançando atualizações para as duas versões ao mesmo tempo, com a mesma simulação por baixo.

A versão de graça continua no ar, com o mesmo mundo da versão vendida na Steam.

Para começar

• Comece pela versão da Steam: os tutoriais ensinam a cavar, estocar comida e montar oficinas.

• Escolha um terreno com rio, árvores e solo plano, porque água e madeira resolvem os primeiros meses.

• Monte cedo uma sala de reunião com mesas e cadeiras, já que o humor dos anões depende dela.

• Abra o modo Lendas depois da primeira queda para ler o que a sua fortaleza deixou na história do mundo.

 

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III  Bastidores

Dois irmãos e uma conta no PayPal

Tarn Adams cresceu com o irmão mais velho, Zach, em Silverdale, no estado de Washington. Os dois inventavam jogos desde a infância, primeiro no papel e depois no computador da família, inspirados por títulos de fantasia e pelas histórias que Zach escrevia.

Tarn fez doutorado em matemática na Universidade Stanford e chegou a trabalhar como pesquisador de pós-doutorado na Universidade Texas A&M. Em 2006, largou a carreira acadêmica para programar em tempo integral. Zach, formado em história antiga, cuidava das ideias, das lendas e dos textos do jogo.

O primeiro jogo da dupla

Antes de Dwarf Fortress, os irmãos lançaram Slaves to Armok: God of Blood, um jogo de aventura em 3D publicado em 2002. O projeto ficou pesado demais para os computadores da época, e Tarn decidiu recomeçar com gráficos de texto, sem gastar tempo com arte e com espaço para simular tudo.

O nome oficial do novo projeto ainda carrega a herança: Slaves to Armok II: Dwarf Fortress. Armok é o deus do sangue cultuado pelos anões, e o título longo sobrevive nos arquivos do jogo até hoje.

A ideia dos anões veio de um protótipo menor, chamado Mutant Miner, em que o jogador cavava túneis atrás de minério. Tarn juntou a escavação à simulação de personagens, e o jogo cresceu a partir dessa mistura.

O anúncio de 2019

Em março de 2019, os Adams contaram no site da Bay 12 Games o motivo da versão paga: as doações sustentavam os dois, mas não cobriam os custos de saúde de Zach. Nos Estados Unidos, sem emprego com carteira, o plano de saúde sai do bolso de cada um.

A parceria com a Kitfox Games, estúdio de Montreal, dividiu as tarefas: os irmãos seguiram cuidando da simulação, e a editora contratou artistas, músicos e programadores de interface. A produção levou mais de três anos.

O jogo saiu da tela preta para pagar o tratamento de um dos criadores.

O dia da estreia

Na estreia na Steam, em 6 de dezembro de 2022, Dwarf Fortress chegou ao topo dos mais vendidos da loja e recebeu avaliações muito positivas dos jogadores. Dias depois, Tarn escreveu nas redes sociais que as vendas garantiam a estabilidade financeira da dupla.

A rotina dos dois continuou igual. Tarn segue programando a simulação, Zach segue escrevendo, e a Bay 12 Games continua sendo uma empresa de dois irmãos. A versão clássica, com as letras coloridas na tela preta, permanece de graça para download no mesmo endereço de 2006.

 
 
 

Quiz da edição

No anúncio da versão paga de Dwarf Fortress, qual motivo os irmãos Adams deram para cobrar pelo jogo na Steam?

APressão da Kitfox Games para lançar na Steam
BOs custos de saúde de Zach, que tratava um câncer
CQueda nas doações recebidas pelo PayPal
DDecisão de abandonar a versão clássica de graça

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