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O sangue de Mortal Kombat parou no Senado em 1993

Atores filmados em vídeo, um golpe final sangrento e uma audiência em Washington deram aos jogos a classificação por idade.

Lutador de artes marciais diante de uma tela azul de estúdio

Daniel Pesina diante da tela azul

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9 de dezembro de 1993. Nessa manhã, dois senadores americanos, Joseph Lieberman, de Connecticut, e Herb Kohl, de Wisconsin, abriram em Washington uma audiência sobre violência nos videogames.

Na sala havia televisores e consoles ligados. Os assessores mostraram trechos de jogos para os senadores e para os jornalistas, e um deles virou a estrela da sessão: Mortal Kombat, o fliperama da Midway lançado no ano anterior.

A cena exibida era curta. Um lutador vence o combate, a tela escurece, uma voz grave manda acabar com o oponente, e o vencedor executa um golpe final com sangue espirrando no chão do cenário.

Lieberman contou que tinha ouvido falar do jogo pelo chefe de gabinete, que viu o filho jogando em casa e ficou espantado com o que aparecia na televisão da sala.

Os executivos da indústria ouviram críticas duras. Howard Lincoln, da Nintendo, e Tom Kalinske, da Sega, chegaram a trocar acusações diante dos senadores, cada um apontando o jogo violento do concorrente.

A Nintendo tinha lançado Mortal Kombat no Super Nintendo com o sangue trocado por um líquido cinza, parecido com suor. A Sega pôs o jogo no Mega Drive sem sangue na tela, mas com um código secreto que devolvia tudo.

O resultado apareceu nas vendas. Os jogadores perceberam logo qual versão guardava o jogo do fliperama, e a caixa da Sega sumiu primeiro das prateleiras. Na audiência, a Nintendo usou a própria censura como prova de responsabilidade.

A pergunta da audiência era simples: quem decide o que uma criança pode jogar? Até ali, ninguém decidia. Não havia selo de idade na caixa, nem aviso na loja.

Os senadores deram um prazo. Se as empresas não criassem um sistema próprio de classificação em um ano, o Congresso faria uma lei.

A seção O Jogo de Hoje conta o que havia naquele fliperama para provocar tanta reação.

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I  O Jogo de Hoje

Atores na tela azul de Chicago

Mortal Kombat é um jogo de luta criado por Ed Boon e John Tobias e lançado pela Midway, fabricante de fliperamas de Chicago, no outono americano de 1992. Dois lutadores se enfrentam num torneio, e vence quem derruba o rival duas vezes.

A grande novidade estava no visual. Os personagens não eram desenhos: eram atores reais, filmados em vídeo diante de uma tela azul e depois recortados e digitalizados (transformados em imagem de computador) quadro a quadro.

Artistas marciais de verdade

O elenco saiu do círculo de amigos de Tobias, que treinava artes marciais em Chicago. Daniel Pesina interpretou Johnny Cage e também os três ninjas do jogo, Scorpion, Sub-Zero e Reptile, que mudavam só a cor da roupa.

Carlos Pesina, irmão de Daniel, fez o deus do trovão Raiden. Ho-Sung Pak viveu o monge Liu Kang, Elizabeth Malecki fez a militar Sonya Blade e Richard Divizio fez o mercenário Kano.

Cada ator chutava, socava e caía diante da câmera. A equipe escolhia os quadros de cada golpe e montava a animação no fliperama, com o peso de um corpo real em cada movimento.

As sessões aconteciam num estúdio improvisado, com iluminação simples e figurino comprado em loja de fantasia. Os ninjas usavam a mesma roupa, e o computador pintava cada um de amarelo, azul ou verde depois da filmagem.

Mortal Kombat pôs gente de verdade apanhando na tela, e foi isso que tornou o sangue tão incômodo.

O golpe final

Depois de cada luta vencida, o jogo dava alguns segundos para o vencedor aplicar uma Fatality (golpe final, que acaba com o adversário derrotado). Cada lutador tinha a sua, com uma sequência de botões que ninguém ensinava.

Sub-Zero arrancava a cabeça do rival junto com a coluna. Scorpion tirava a máscara, revelava um crânio e cuspia fogo. Kano arrancava o coração do oponente ainda batendo.

Os comandos circulavam de boca em boca nos fliperamas e nas revistas de jogos. Descobrir uma Fatality nova virou assunto de recreio, e cada máquina juntava uma roda de curiosos atrás do jogador.

O vilão de quatro braços

Nem todos os lutadores eram atores. Goro, o príncipe de quatro braços que guarda o torneio, foi esculpido em argila por Curt Chiarelli e animado em stop-motion (técnica em que um boneco é fotografado pose a pose).

Acima dele estava Shang Tsung, o feiticeiro que organiza o torneio e rouba a alma dos derrotados. Vencer Shang Tsung fechava o jogo e entregava ao jogador o final do lutador escolhido.

Shang Tsung trocava de forma no meio da luta e virava qualquer um dos sete lutadores do elenco. Quem chegava até ele precisava conhecer o estilo de todos, porque o feiticeiro mudava de corpo sem aviso.

 
 

II  Onde Jogar

Do fliperama à coleção de 2025

O gabinete original da Midway ocupava o canto dos fliperamas e cobrava uma ficha por partida. Hoje, o caminho mais direto até a versão de 1992 é Mortal Kombat: Legacy Kollection, coletânea da Digital Eclipse lançada em 2025.

A coleção reúne os primeiros jogos da série, inclusive o fliperama original, e roda no PlayStation 5, no Xbox Series, no Nintendo Switch e no computador, pela Steam. Uma partida completa leva cerca de meia hora.

O controle muda a experiência. No fliperama, o bloqueio tinha botão próprio, e a coletânea permite reconfigurar os comandos para o padrão do controle moderno, com opção de voltar o tempo alguns segundos para treinar uma sequência difícil.

As versões caseiras de 1993 chegaram às lojas na mesma data, 13 de setembro, que a Acclaim, editora das conversões, batizou de Mortal Monday (segunda-feira mortal) e anunciou na televisão.

No Mega Drive, o código secreto que liberava o sangue era a sequência A, B, A, C, A, B, B, digitada na tela de aviso. A versão da Sega vendeu mais que a do Super Nintendo, e a Nintendo desistiu do suor cinza na continuação.

O fliperama de 1992 cabe hoje numa coletânea com os comandos originais e o sangue de volta.

Para arrancar a primeira fatality

• Termine a luta perto do rival: algumas exigem um passo de distância, outras a tela inteira.

• Espere a voz anunciar o golpe final antes de digitar a sequência.

• Comece pelo Sub-Zero: a dele usa direcional e um soco, sem botão de bloqueio.

• Treine contra o computador no primeiro nível, onde o rival cai rápido.

A série depois do fliperama

Mortal Kombat II saiu em 1993 e ampliou o elenco. Em 1995, o diretor Paul W. S. Anderson levou a história ao cinema, e a música tema do filme, com o grito do título, tocou nas rádios.

A franquia passou por estúdios e donos. Desde 2011, ela está com a NetherRealm Studios, comandada por Ed Boon e controlada pela Warner Bros. Games.

A entrada mais recente da linha principal é Mortal Kombat 1, de 2023, que recomeçou a história do zero e roda nas mesmas plataformas da coletânea. Os golpes finais seguem lá, agora em três dimensões e com câmera de cinema.

Para quem prefere começar pelo original, a coletânea traz também entrevistas com Boon, Tobias e parte do elenco, gravadas para o lançamento, e as versões caseiras de 1993 lado a lado com o fliperama.

 

Quem banca a edição de hoje

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Using Roku Ads Manager, the campaign moved from a pilot to a permanent performance engine for the brand.

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III  Bastidores

Um prazo de 12 meses para a indústria

Ed Boon era programador da Midway e tinha trabalhado em máquinas de pinball (fliperama de bolinha). John Tobias desenhava quadrinhos. A equipe do primeiro Mortal Kombat tinha quatro pessoas e levou cerca de dez meses no projeto.

A ideia inicial era um jogo com Jean-Claude Van Damme, astro de filmes de ação. O acordo com o ator não saiu, e Johnny Cage, astro de cinema metido a lutador, ficou como paródia dessa tentativa.

O título do jogo também custou discussão. Boon conta que alguém escreveu “Combat” num quadro da sala, e um colega trocou o C por um K. A grafia errada pegou.

O K se espalhou pela série inteira. As continuações trouxeram Kitana, Kung Lao e o próprio Kombat no título, e a letra virou marca registrada da franquia.

A resposta ao senado

A pressão de Lieberman e Kohl funcionou antes do prazo. Em 1994, as empresas do setor criaram a ESRB (Entertainment Software Rating Board, conselho de classificação de software de entretenimento), que começou a pôr selo de idade nas caixas dos jogos.

As letras viraram rotina: E para todos, T para adolescentes, M para maiores de 17 anos. As continuações de Mortal Kombat passaram a sair com o M na capa.

No Brasil, a classificação indicativa de jogos ficou com o Ministério da Justiça, que hoje usa faixas de idade próprias, de livre a 18 anos, impressas na caixa e exibidas nas lojas digitais.

O selo de idade nasceu de uma audiência no Senado, e o jogo da Midway foi a peça mais exibida dela.

O que sobrou do elenco

A relação com os atores azedou cedo. Daniel Pesina foi afastado da Midway depois de posar como Johnny Cage num anúncio de outro jogo de luta, e alguns atores processaram a empresa nos anos 1990 pelo uso das imagens em versões caseiras. A Justiça deu ganho de causa à Midway.

Quando a série trocou o vídeo pelos modelos em três dimensões, os rostos filmados em Chicago deixaram a tela. Na coletânea de 2025, eles voltam com os mesmos chutes gravados diante da tela azul em 1992.

 
 
Quiz da edição

Em que data os senadores Joseph Lieberman e Herb Kohl abriram em Washington a audiência sobre violência nos videogames?

A13 de setembro de 1993, dia do lançamento das versões caseiras
B9 de dezembro de 1993
Coutono de 1992, quando o fliperama chegou às máquinas
D1995, ano em que o filme chegou aos cinemas

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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Dia 2 de 7 · a temporada de outubro fecha 31/10

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