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Ōkami volta 18 anos depois do fim da Clover

O jogo da loba Amaterasu saiu em 2006, o estúdio fechou meses depois, e o diretor anunciou a continuação em 2024.

Loba branca com marcas vermelhas sobre paisagem pintada a tinta

Amaterasu, a deusa do sol em forma de loba

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20 de abril de 2006. Foi a data em que Ōkami chegou às lojas japonesas para PlayStation 2, feito pela Clover Studio, uma divisão interna da Capcom.

O jogo põe o jogador na pele de Amaterasu, a deusa do sol da mitologia japonesa, encarnada numa loba branca. Cada cena parece pintada com tinta e pincel sobre papel de arroz, com contornos grossos e cor aguada nas bordas.

Nos Estados Unidos, o lançamento veio em setembro. A crítica recebeu bem, e o site americano IGN deu a Ōkami o prêmio de jogo do ano de 2006.

As vendas andaram devagar. O PlayStation 2 estava no fim da vida, o PlayStation 3 chegaria em novembro, e uma aventura sobre uma loba que pinta o céu não tinha o apelo fácil de um jogo de tiro.

Em outubro de 2006, a Capcom anunciou o encerramento da Clover Studio. O estúdio fechou as portas em março de 2007, menos de um ano depois do lançamento japonês do jogo pelo qual ficaria lembrado.

Os três nomes mais conhecidos da casa saíram juntos: o diretor de Ōkami, Hideki Kamiya, o produtor Atsushi Inaba e Shinji Mikami, criador de Resident Evil. Levaram parte da equipe para um estúdio novo, japonês e independente.

Ōkami sobreviveu em relançamentos: uma versão para Wii em 2008, uma remasterização em alta definição em 2012 e outra rodada para consoles mais novos em 2017 e 2018. Kamiya dizia em entrevistas, ano após ano, que gostaria de voltar à loba.

Em 2024, no palco do The Game Awards (a premiação anual da indústria de jogos, em Los Angeles), ele anunciou a continuação, feita pela Clovers, estúdio que fundou naquele ano com o nome do antigo no plural.

O Jogo de Hoje começa pela vila de Kamiki, transformada em pedra por uma serpente de oito cabeças.

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I  O Jogo de Hoje

O pincel que devolve as cores

A resposta de ontem

O que significa cada letra de S.T.A.L.K.E.R.?

Scavengers, Trespassers, Adventurers, Loners, Killers, Explorers e Robbers: catadores, invasores, aventureiros, solitários, matadores, exploradores e ladrões. A sigla resume os tipos de gente que entra na Zona no jogo da GSC Game World e separa o nome do título do filme Stalker, de Andrei Tarkovsky, de 1979.

Ōkami abre com uma lenda. Cem anos antes da história, a loba branca Shiranui e o guerreiro Nagi enfrentaram Orochi, serpente de oito cabeças que exigia da vila de Kamiki uma moça em sacrifício a cada ano. Orochi caiu, e Shiranui morreu dos ferimentos.

No presente do jogo, Susano, descendente bêbado e fanfarrão de Nagi, arranca a espada que prendia a serpente, e Orochi volta. Uma névoa amaldiçoada cobre Kamiki e transforma os moradores em pedra.

Sakuya, o espírito da árvore guardiã da vila, desperta uma estátua de loba, e Amaterasu volta à vida. É ela quem o jogador controla pelas dezenas de horas seguintes.

A loba não fala. Quem fala por ela é Issun, um artista do tamanho de uma pulga, do povo Poncle (os mensageiros minúsculos dos deuses no jogo), que viaja pendurado no pelo dela e faz piada o tempo todo.

Issun também explica as regras do mundo. Ele chama Amaterasu de bola de pelo, duvida que ela seja deusa e, aos poucos, vira o único amigo constante da viagem pelo Japão antigo, chamado no jogo de Nippon.

O pincel celestial

A mecânica central se chama Pincel Celestial (Celestial Brush, no original). Num toque de botão, a tela congela e vira uma folha de papel, e o jogador desenha com o controle.

Um círculo no céu faz o sol nascer. Um traço reto corta inimigos e troncos. Uma linha da água até um ponto seco leva a correnteza, e um círculo em volta de uma árvore morta faz a árvore florescer.

Cada técnica pertence a um dos 13 deuses do pincel, apagados em constelações espalhadas pelo mapa. Amaterasu os recupera completando o desenho das estrelas, e cada deus aparece como um animal do zodíaco chinês.

Ōkami trata o mundo como uma pintura rasgada: o jogador recupera as cores região por região.

Quando Amaterasu restaura uma árvore guardiã, a cor volta à paisagem em onda, flores brotam pelo chão e os moradores saem de casa. A recompensa da exploração é ver o mapa ficar bonito de novo.

Oito cabeças e oito jarras

A batalha com Orochi repete um mito japonês. No Kojiki (Registro de Fatos Antigos, a mais velha compilação de mitos do Japão), o deus Susanoo vence a serpente depois de embebedar cada cabeça com saquê servido em oito jarras.

O texto descreve o monstro assim: “seus olhos são vermelhos como a cereja-de-inverno, e ele tem um só corpo com oito cabeças e oito caudas” (Ō no Yasumaro, Kojiki, 712).

No jogo, Amaterasu enche as jarras com o pincel e espera cada cabeça beber. A luta parece o desfecho e acontece perto de um terço da aventura: depois vêm a ilha de Ryoshima, as terras geladas de Kamui e um chefe final chamado Yami, o senhor das trevas.

O nome do jogo também brinca com a língua. Em japonês, ōkami escrito com um ideograma quer dizer lobo; escrito com outros dois, quer dizer grande deus. A loba e a deusa moram na mesma palavra.

 
 

II  Onde Jogar

Da Wii ao Switch, com o mesmo pincel

A versão original de Ōkami saiu só para PlayStation 2. Em 2008 veio a de Wii, adaptada pelo estúdio americano Ready at Dawn, com o controle de movimento do console servindo de pincel.

A capa americana da edição de Wii virou história à parte. A arte usada pela Capcom tinha sido baixada do site IGN e saiu impressa com a marca-d'água do site num canto. A Capcom pediu desculpas e trocou a capa nas tiragens seguintes.

A remasterização Ōkami HD, em alta definição, saiu em 2012 para PlayStation 3. Em 2017 chegou a PlayStation 4, Xbox One e computador, e em 2018 ao Nintendo Switch, onde dá para desenhar com o dedo na tela de toque.

Hoje a versão HD está na Steam e nas lojas digitais da PlayStation, do Xbox e da Nintendo, com preço de clássico remasterizado. A história principal passa de 30 horas, pela média do site HowLongToBeat.

O filhote no nintendo ds

Em 2010 a Capcom lançou Ōkamiden (algo como A Crônica de Ōkami) para Nintendo DS, sem Kamiya na direção. O protagonista é Chibiterasu, um filhote de Amaterasu, e o pincel passa para a caneta da tela de baixo.

A história se passa meses depois do original e reencontra Kamiki, Issun e Sakuya. Até o anúncio de 2024, Ōkamiden foi a última aventura nova da série.

Em qualquer versão, o pincel continua no centro: nenhuma adaptação trocou o desenho como forma de jogar.

Para as primeiras horas

1. Desenhe o círculo do sol quando a noite atrapalhar: o dia volta na hora.

2. Alimente os animais do caminho: cada um rende Louvor, a experiência dada pelos deuses.

3. Faça florescer toda árvore seca: rende Louvor e às vezes abre passagem.

4. Cave nos pontos brilhantes do chão: guardam tesouros e itens de cura.

5. Escute Issun quando travar: ele dá a pista do próximo traço.

O trailer da continuação não trouxe plataforma nem data. Até o último comunicado oficial da Capcom, o jogo seguia sem janela de lançamento anunciada.

 

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III  Bastidores

Um estúdio que durou três anos

A Capcom criou a Clover Studio em 2004 para abrigar a equipe de Viewtiful Joe, jogo de ação de 2003 dirigido por Hideki Kamiya. O estúdio tinha liberdade para projetos fora das grandes franquias da casa.

Kamiya vinha de uma carreira longa na Capcom: dirigiu Resident Evil 2, de 1998, e criou Devil May Cry, de 2001. Na Clover, os primeiros testes de Ōkami mostravam um lobo realista correndo por florestas com cara de fotografia.

As primeiras imagens divulgadas pela Capcom, ainda em 2004, seguiam essa linha. O visual pesava no console, e a floresta realista se parecia com a de qualquer outro jogo da época.

A equipe trocou o realismo pelo traço do sumi-e (a pintura japonesa com tinta preta e pincel) e da gravura ukiyo-e (as estampas japonesas em bloco de madeira dos séculos 17 a 19). O PlayStation 2 sofria com a vegetação realista, e o estilo pintado aliviava o peso gráfico e dava ao jogo uma cara própria.

Em 2006, a Clover lançou Ōkami e, em setembro, God Hand, jogo de briga dirigido por Shinji Mikami. Nenhum dos dois vendeu o bastante para a Capcom, que anunciou o encerramento do estúdio semanas depois.

A saída de 2006

Kamiya, Inaba e Mikami já tinham deixado a Capcom antes do anúncio oficial. Os três abriram uma empresa nova com ex-colegas da Clover, e parte da equipe de Ōkami foi junto para Osaka.

Kamiya ficou nesse estúdio até outubro de 2023, quando anunciou a saída. Nos meses seguintes, falou com fãs sem revelar o próximo passo.

Dezoito anos separam o lançamento de Ōkami do anúncio da continuação, com o mesmo diretor e a mesma editora.

O trevo no plural

Em 2024, Kamiya fundou a Clovers. O nome no plural retoma o do estúdio fechado pela Capcom, e a própria Capcom assina como editora da continuação.

O trailer do The Game Awards mostrou Amaterasu de novo, com o traço de pincel e a trilha de inspiração japonesa. Kamiya apresentou o projeto como a volta a uma história que ficou interrompida com o fechamento da Clover.

Os três fundadores saíram juntos em 2006 e criaram a casa onde Kamiya passou os 17 anos seguintes.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual estúdio Kamiya, Inaba e Mikami fundaram depois do fim da Clover?

 
 
Quiz da edição

No mito que abre Ōkami, o que a serpente Orochi exigia da vila de Kamiki a cada ano?

AUma jarra de saquê
BUma moça em sacrifício
CUma colheita de arroz
DUma estátua de loba

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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