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Satoru Iwata refez o motor de Mother 2 em 6 meses

O RPG de Shigesato Itoi travou por anos até um programador da HAL propor recomeçar do zero. Fora do Japão, virou EarthBound.

Menino de boné com taco de beisebol olhando um meteoro caído no morro de uma cidadezinha à noite

O subúrbio de Ness, no Super Famicom de 1994

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27 de agosto de 1994. Foi o dia em que Mother 2 chegou às lojas do Japão, num cartucho de Super Famicom, o videogame de 16 bits da Nintendo.

O jogo era um RPG (jogo de interpretação de papéis, em que o jogador conduz um grupo por uma história longa e fortalece os personagens a cada batalha). Só que não trazia espada, castelo nem dragão. Trazia um menino de boné, um taco de beisebol e uma cidadezinha com cara de filme americano dos anos 1980.

Os inimigos eram cachorros mal-humorados, motoristas de táxi enfeitiçados e hippies novos com cara de poucos amigos. O item de cura mais comum era hambúrguer. Quando o herói sentia saudade de casa, passava a errar golpes na batalha, e o remédio era telefonar para a mãe.

Quem escreveu tudo foi um homem sem formação em programação: um publicitário famoso no Japão, autor de slogans de televisão e de letras de música, conhecido de qualquer família japonesa com um aparelho de TV na sala. Ele tratava o videogame como um livro de contos, com piada, melancolia e um final capaz de assustar adulto.

O cartucho que chegou às prateleiras escondia uma história de quase cancelamento. Durante anos, a equipe acumulou mapas, músicas e diálogos sem conseguir fazer o conjunto rodar direito. A saída veio de um programador que presidia uma empresa pequena e endividada, com uma proposta curta e ousada: jogar fora o código antigo e começar de novo.

Fora do Japão, o jogo ganhou outro nome, EarthBound, e uma campanha de anúncios que se gabava do próprio cheiro ruim. Vendeu pouco nos Estados Unidos na estreia e levou décadas para virar o cult adorado de hoje.

A seção O Jogo de Hoje apresenta o publicitário, o menino de boné e o mundo esquisito criado pelos dois.

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I  O Jogo de Hoje

Um menino de boné contra o universo

Mother 2 nasceu da cabeça de Shigesato Itoi, redator publicitário de Tóquio que, nos anos 1980, já assinava campanhas de lojas de departamento e letras para cantores japoneses. Em 1989 ele lançou Mother, para o Famicom, e a Nintendo encomendou uma continuação logo depois.

Itoi queria um RPG passado no mundo contemporâneo. Na época, o gênero morava em reinos medievais, no molde de Dragon Quest, e ele achava graça em trocar a espada pelo taco e a poção pela pizza.

O mundo de ness

O protagonista se chama Ness, um garoto da cidade de Onett. Numa noite, um meteoro cai no morro atrás da casa dele. Dentro da cratera, um inseto vindo do futuro avisa que uma entidade chamada Giygas vai destruir o mundo, e que Ness e três amigos ainda desconhecidos podem detê-la.

Os amigos aparecem pelo caminho. Paula é uma menina com poderes psíquicos. Jeff é um inventor de óculos que estuda num internato. Poo é o príncipe de um reino oriental e treina artes marciais.

As cidades seguem uma contagem: Onett, Twoson, Threed e Fourside, trocadilhos com one, two, three e four (um, dois, três e quatro, em inglês).

O combate é por turnos, cada lado ataca na sua vez. A vida dos personagens aparece num contador giratório, como o hodômetro de um carro: o dano cai aos poucos, e um jogador rápido consegue curar o herói antes de o número chegar a zero.

Os inimigos andam pelo mapa à vista, sem emboscada surpresa. Quando o grupo fica muito forte, encostar num bicho fraco encerra a luta na hora, sem abrir a tela de combate.

Mother 2 tirou o RPG do castelo e o pôs no quintal de um subúrbio.

O humor e o medo

O pai de Ness nunca aparece na tela. Ele só existe no telefone: é para ele que o jogador liga para salvar a partida, e é ele quem deposita dinheiro na conta do filho.

Pelo caminho há uma banda de jazz presa a um contrato abusivo, um culto que pinta tudo de azul e um vizinho chato chamado Pokey, que começa como piada e termina como um dos vilões da história.

O final é outro tom. Giygas aparece como um borrão vermelho que se mexe sem forma, e as armas do grupo não fazem efeito. A vitória depende de oração: Paula reza, e a reza chega até a pessoa sentada na frente da televisão, chamada pelo nome que digitou no começo.

Itoi contou em entrevistas que a cena nasceu de um susto de infância, quando entrou na sala errada de um cinema e assistiu a um filme de suspense japonês feito para adultos.

 
 

II  Onde Jogar

No Switch, com o nome americano

EarthBound está no catálogo de jogos de Super Nintendo do Nintendo Switch Online, a assinatura da Nintendo para jogo em rede e clássicos. A empresa anunciou a chegada num Nintendo Direct (a transmissão de novidades da marca) em fevereiro de 2022 e liberou o jogo no mesmo dia.

No Japão, o mesmo catálogo recebeu a versão original, com o nome Mother 2 e os textos em japonês. Os dois rodam no Switch e no Switch 2.

Preço hoje: sai sem compra separada para quem já tem o plano básico do Switch Online.

É uma aventura longa, de várias semanas no ritmo de uma hora por noite, com cidades grandes, cavernas e um deserto inteiro para atravessar a pé.

O RPG mais raro da Nintendo nos anos 1990 virou item de catálogo de assinatura.

O caminho até o catálogo

O cartucho americano saiu em junho de 1995, numa caixa grande que vinha com um guia de estratégia. Hoje, o cartucho original virou peça de colecionador.

Por quase duas décadas, o jogo não teve relançamento oficial. Em 2013, chegou ao Virtual Console do Wii U (a loja de clássicos digitais da Nintendo), e foi a primeira vez que a Europa e a Austrália receberam EarthBound oficialmente.

Em 2017, entrou na lista dos 21 jogos do Super Nintendo Classic Edition, o console em miniatura com os clássicos já gravados.

Para começar no switch

• Abra o aplicativo de Super Nintendo do Switch Online e escolha EarthBound.

• Dê nome ao grupo e ao prato favorito logo na primeira tela: a mãe de Ness serve esse prato quando ele volta para casa.

• Telefone para o pai em cada cidade nova, porque é assim que o jogo salva.

• Converse com todo mundo em Onett, inclusive com os cachorros.

A continuação só no japão

Mother 3 saiu em 2006 para o Game Boy Advance, só no Japão, com direção de Itoi. Por anos, a única versão em inglês foi uma tradução feita por fãs, lançada em 2008 por um grupo liderado pelo tradutor americano Clyde Mandelin.

Ness também ganhou vida longe da série. Ele entrou no elenco do primeiro Super Smash Bros., de 1999, e boa parte do público ocidental conheceu o menino de boné pela luta antes de conhecer o RPG.

 

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III  Bastidores

A aposta do programador da HAL

Satoru Iwata entrou na HAL Laboratory, estúdio de Tóquio que trabalhava para a Nintendo, ainda estudante de engenharia no começo dos anos 1980. Programou jogos como Balloon Fight e virou o técnico que a empresa chamava quando um projeto encrencava.

No começo dos anos 1990, a HAL estava à beira da falência. A Nintendo ajudou a salvar a empresa, e Iwata assumiu a presidência do estúdio em 1993.

O projeto parado

Mother 2 era feito por duas casas: a Ape, empresa ligada a Itoi, cuidava da história e do desenho, e a HAL ajudava na programação. O desenvolvimento começou logo depois do primeiro Mother e foi se arrastando.

O código acumulava remendos. Itoi lembrava de reuniões em que ninguém conseguia dizer quando o jogo ficaria pronto, e a Nintendo chegou perto de cancelar o projeto.

Iwata foi chamado para avaliar o estrago. Itoi registrou a resposta dele no livro Iwata-san, publicado pela editora Hobonichi em 2019: “Usando o que existe, vai levar dois anos. Se eu puder refazer do zero, termino em meio ano.”

A equipe aceitou. Iwata reescreveu o motor do jogo (o programa de base que desenha o mapa, move os personagens e roda as batalhas), aproveitando o roteiro, as músicas e os desenhos que já estavam prontos.

Iwata apagou anos de código e entregou o motor novo no prazo prometido.

De mother 2 a earthbound

Com o jogo pronto no Japão, a Nintendo of America cuidou da versão em inglês. A tradução ficou a cargo de Marcus Lindblom, que adaptou piadas e nomes para o público americano. O título mudou para EarthBound porque o primeiro Mother nunca tinha saído nos Estados Unidos.

A campanha americana usou o slogan “This game stinks” (este jogo fede), com cartões de raspar e cheirar nas revistas. O humor estranho não ajudou nas vendas da estreia, e o jogo só ganhou fama anos depois, nos fóruns de fãs da internet.

O programador na presidência

Iwata seguiu na HAL até 2000, quando foi para a Nintendo. Em 2002, virou presidente da empresa e comandou a fase do Nintendo DS e do Wii. Ficou no cargo até julho de 2015, quando faleceu aos 55 anos.

Na palestra de abertura da Game Developers Conference de 2005, ele se apresentou assim: “No meu cartão de visitas, sou presidente de empresa. Na minha cabeça, sou desenvolvedor de jogos. Mas no meu coração, sou um jogador.”

Na próxima edição: o RPG do Saturn cujo código-fonte a Sega perdeu.

 
 
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